Discussão na padaria

Eu sabia, desde o primeiro minuto, que estava errado. Mesmo assim, não consegui me conformar com a rigidez de pensamento e ação do balconista japonês.
Sou cliente diário de uma padaria, na saída das catracas da estação de Shintomicho e a cada passadinha por lá, tomo um café e como uma deliciosa broinha de abóbora, que me faz matar um pouco das saudades das broinhas aerosas do Marcolini, em Curitiba.
Acho até que sou conhecido por lá pois nunca vi outro estrangeiro pelas imediações, nem na estação e muito menos dentro da padaria.
No último sábado, a caminho da lavanderia, resolvi tomar café com broinha mas só estava carregando meu porta-moedas, portanto imaginei que tivesse em torno de 500 ienes, algo como uns 10 reais.
Apanhei a minha bandeja, escolhi três broinhas e pedi um café com leite; fui servido no balcão e imediatamente cobrado (é assim que funciona) e a conta deu 449 ienes. Despejei minhas moedinhas e o resultado da soma foi… 448 ienes!
Mostrei para o atendente com meu sorriso de pedido de desconto, perguntei novamente o valor e avisei que só tinha 448. O óbvio, na minha teoria de comerciante ou na minha cultura de brasileiro é que ele diria “daijobu”, “tudo bem”, “OK” ou qualquer coisa assim que faria sentir-me um cliente diferenciado.
Nada!! A diferença de um iene é, em valores cambiais, igual a 1 centavo de real. No Brasil, nada se compra por 1 centavo e no Japão, com um custo de vida superior, nada custa 1 iene. Além disso, de 449 ienes para 448, eu estava pedindo um desconto de 0,2%.
Impassível, o atendente pediu-me para retirar um dos produtos já que eu não tinha o dinheiro. Tirei uma das broinhas, tomei o café enraivecido e fui embora, esbravejando em português e prometendo não voltar nunca mais.
Voltei, é claro. Dois dias depois, mais calmo e louco prá comer outra broinha de abóbora, comecei a pensar sobre o que se passa na cabeça do funcionário. É simples: ninguém pechincha. Ninguém se mostra sem dinheiro ou esmolando. Além disso, nenhum funcionário é trabalhador celetista por aqui, não existe esse negócio de estabilidade no emprego e eles estão sempre sendo avaliados. E ainda mais, a grande maioria desses jovens funcionários fazem arubaito, palavra emprestada do alemão arbeit que significa trabalho e aqui é o nosso popular “bico”. Eles fazem bico e o fazem como se fosse o emprego da vida deles. E nada de dar moleza. Haja paciência para se acostumar!
Mas a broinha é muito gostosa e vai uma foto da “broinha da discórdia”.

About Helio Ciffoni

Helio Galvão Ciffoni, 1956 Mestre em Educação, Físico e Engenheiro Civil. Empresário do setor de Tecnologia da Informação, consultor de empresas, professor universitário por mais de 25 anos.
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One Response to Discussão na padaria

  1. Maikel says:

    Não precisa ser tão rígido também, mas é a cultura dos caras. Como você bem disse no começo: já começou sabendo que estava errado.

    Já tinha ouvido um caso parecido com o seu.

    Uma coisa que o Edson uma vez me disse: japonês não gosta de pedir desculpas. Isso talvez ajude a explicar algumas coisas sobre essa cultura. O fato é que quando trazemos um pouco da cultura japonesa para o nosso cotidiano acabamos por deixa hábitos ruins de lado.

    Grande post, sempre que posso do uma lida no seu blog.

    Abraços

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