De Nagasaki a Fukushima, como conviver com o risco da radiação

Em 15 de junho participei de mais um seminário sobre a situação da radiação no Japão e os riscos que se corre com o que pode acontecer vindo das usinas de Fukushima. Os seminários anteriores para os quais fui convidado tiveram a presença de funcionários do governo japonês, sempre com o intuito de tranquilizar os representantes da comunidade estrangeira presente, basicamente formada pelo corpo diplomático, imprensa e representantes de empresas.
O primeiro seminário, ainda em março e logo depois do evento, foi pleno de tensão já que as informações eram as mais desencontradas possíveis e os nervos estavam ‘a flor da pele, principalmente por parte dos entrangeiros pressionados pelos seus governos e familiares. Daquela vez, foram apresentados os níveis de radiação nos alimentos e na água e o mal que isso poderia causar ao ser humano, aos animais e ‘as lavouras na região atingida e também em Tóquio. Passados mais de 100 dias, esta conferência teve um aspecto bastante distinto, já que não foi apresentada em órgão de governo e teve a participação de especialistas vindos da iniciativa privada.
O evento teve a abertura de Shigeru Katamine, Vice-Presidente da NASHIM (Nagasaki Association for Hibakushas’ Medical Care) e apresentações de Jitsuro Terashima (Presidente do Japan Research Institute, Presidente da Universidade Tama e Consultor do Instituto Mitsui de Estudos de Estratégia Global) e Shunichi Yamashita, diretor da Faculdade de Ciências Biomédicas da Universidade de Nagasaki e Consultor do Governo da Província de Fukushima para gerenciamento do risco ‘a saúde causado pela radiação nuclear.
Da confusão de informações e falta de esclarecimento do governo japonês sobre o que realmente está acontecendo, quais são os riscos e quais as medidas que serão adotadas, podemos resumir o seminário em algumas frases:

Shigeru Katamine:
“Depois de cem dias após o acidente, não sabemos ainda o que pode acontecer com a Usina de Fukushima.”
“Nós, humanos, que experimentamos no passado os acontecimentos de Hiroshima, Nagasaki e também de Chernobyl não temos razão para deixar acontecer novamente a mesma discriminação que está ocorrendo com as pessoas de Fukushima e, para isso, precisamos alertar não apemas o Japão mas o resto do mundo.”

Jitsuro Terashima abriu sua apresentação citando discurso do escritor japonês Haruki Murakami, ao receber recentemente um prêmio na Espanha. Murakami falou sobre a vitimização novamente do Japão pela energia nuclear. O Japão sofreu outra vez com a desintegração do átomo, desta vez não pela guerra mas por ter, o Japão, escolhido a energia nuclear como a fonte para cobrir as suas necessidades. A fonte, a origem, é a mesma; seja a utilização civil ou militar, o uso “pacífico” ou na guerra. São duas faces da mesma moeda. Terashima lembrou que a Europa está se movimentando, e não apenas os movimentos populares, mas os seus governos, para substituir, com prazo marcado, a energia nuclear por alguma alternativa limpa e renovável.
O Japão só utiliza a energia nuclear para fins pacíficos e reconhece que administrou mal a gestão de sua matriz energética, não buscando rapidamente as alternativas e nem, tampouco, tratou de melhorar as suas instalações. Fukushima foi construída em 1971, é uma instalação ultrapassada e que já deveria ter sido substituída. De uma forma geral, o sistema funcionou e espera-se que funcione em outras instalações, contra a alta atividade sísmica da região. É sabido que, para conter os efeitos do maremoto, o sistema foi subdimensionado e tornou-se a razão do desastre. Como manteve-se ao largo do desenvolvimento nuclear para fins militares, no entender de Terashima, o Japão deve pedir ajuda aos outros países para acelerar a solução para o seu problema de energia.

O Dr. Shunichi Yamashita, com a experiência de quem atende os hibakushas(denominação dada ‘as vítimas das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki e que, literalmente, significa “pessoas afetadas pela explosão”) e que conviveu durante anos como consultor do desastre de Chernobyl, abriu a sua palestra perguntando se “é melhor evacuar a população agora pois há risco no futuro ou explicar que agora não há risco e preparar para a evacuação de Fukushima no futuro?”
Analisando os números da radiação que já atinge a região de Fukushima e vizinhanças, Yamashita explicou que os valores são ainda relativamente baixos. Por exemplo, uma pessoa na área recebe menor radiação que um piloto de avião que faz a rota Tóquio – Nova Iorque todas as semanas ou um morador da cidade brasileira de Guarapari, famosa pelas suas areias monazíticas. Com esse argumento, Yamashita considera que é melhor alimentar-se dos produtos com alguma concentração de radioatividade na região do que deixar as pessoas sem alimentos. Se não há risco para a saúde, a não ser que se consuma por décadas esses produtos, não há razão para evitar. Novamente, e da mesma forma citada por Terashima, ocorre aqui também um caso de discriminação, a não se consumir alimentos oriundos de Fukushima ou Ibaraki.

E enquanto não se sabe ainda o que realmente ocorre com os reatores e o que esperar de Fukushima, os protestos continuam pela Europa. Nos Estados Unidos, mesmo 30 anos após o desastre de Three Miles Island, não se fala em fechar as usinas nucleares. E no Japão todo, o movimento “No nukes” está crescendo nas grandes cidades, a cada final de semana.

About Helio Ciffoni

Helio Galvão Ciffoni, 1956 Mestre em Educação, Físico e Engenheiro Civil. Empresário do setor de Tecnologia da Informação, consultor de empresas, professor universitário por mais de 25 anos.
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2 Responses to De Nagasaki a Fukushima, como conviver com o risco da radiação

  1. Ghidini says:

    Hélio,
    Você, físico e engenheiro, bem como eu apenas engenheiro, mas ambos cursamos o CICTEN (Curso de Introdução em Ciência, Tecnologia e Engenharia Nuclear), sabemos da complexidade que são essas centrais nucleares e de seus riscos intrínsecos.
    A fatalidade segundo os especialistas, não ocorre apenas por um único motivo e sim por uma somatória de fatores e me parece que tenha sido isso. Instalações defasadas, centrais nucleares que em si só já são perigosas, associadas a um terremoto de 9 pontos na escala Richter.
    Esperar que o “no nukes” siga crescendo e que haja uma aposta por energias renováveis e sustentáveis de baixo impacto ambiental, além de uma conscientização da necessidade de redução do consumo per – capita.

  2. Helio Ciffoni says:

    Roberto,
    A maioria dos especialistas que ouvi, ao vivo nas conferências das quais participei em Tóquio afirmam sempre que as usinas resistiram bem ao terremoto mas que não estavam preparadas para o tsunami, para falhas humanas no processo de recuperaçano, para falta de equipamente, ou seja, as variáveis são muitas e a complexidade do processo aumenta exponencialmente a cada novo fator colocado em jogo. Em resumo, não dominamos ainda os efeitos em cascata e não é possível cercar todas as possibilidades. E os meteoros, e os mísseis, e a elevação da temperatura ou do nível dos mares? Sempre haverá um imprevisto somado, desencadeando uma série de novos processos. É preciso buscar alternativas e estaos atrasados, estas ainda são exercícios de retórica, ou discursos inflamados de militantes ou pressão da indústria. Para o cidadão comum, apenas a espera sentado na bomba atômica.

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