Terremoto em Tóquio

Voltei ao Japão na noite de terça-feira, 8 de março. O dia seguinte foi o de readaptação e descanso, afinal são 40 horas de porta a porta de Curitiba a Toyosu, em Tóquio. Não pretendia fazer nenhuma reunião fora nesta semana que começou na quinta mas no dia 11, por volta de meio-dia, uma empresa com quem tento contato há meses me pediu para visitá-los em seu escritório próximo do Tokyo Dome. A reunião foi marcada para ‘as 15 horas e saí de casa com tempo suficiente para procurar o endereço, já que isso em Tóquio não é algo trivial.
Cheguei cedo, mais de meia hora de antecedência e resolvi esperar em uma cafeteria próxima do local. Pedi um caffe latte, uma rosquinha dessas sem graça de cafeteria japonesa e comecei a ler os dados que tinha preparado para o encontro. Minha idéia era sair 15 minutos antes da hora marcada, suficientes para cumprir os 5 minutos de caminhada até a empresa, subir ao décimo-quinto andar e fazer-me anunciar com os 5 minutos de antecedência, como é de praxe.
Levantei-me para entregar a bandeja usada, vestir meu casaco e apanhar a bolsa ‘as 14:44h. Em pé, senti o tremor e ouvi um senhor falar para a atendente, no balcão, sem qualquer alarde: “jishin” que, em português, é nada menos que “terremoto”. Como sempre, acostumado com os constantes tremores, continuei a caminhar para a porta mas a intensidade foi aumentando e vi que a coisa era séria. Fiquei parado no meio da sala e logo percebi que estava em baixo da saída do ar condicionado e pensei logo que o aparelho poderia desabar. O gerente da cafeteria saiu de trás do balcão e veio segurar a vitrine e os cartazes e resolvi sair do ambiente, que a essa altura me parecia uma caixinha sendo chacoalhada por um gigante, pensando ainda que a porta poderia ficar emperrada e não pudesse mais abrir. Já na calçada e ainda com o balanço violento, vi um poste com os cabos de energia e um transformador, bem ‘a minha frente. Recuei, fiquei sob o toldo da cafeteria olhando para as pessoas, todas sem emitir qualquer palavra, apenas com os olhares já cada vez mais apavorados. Quando finalmente parecia ter parado o movimento, coloquei meu pé na calçada asfaltada e ainda senti a calçada mover-se para os lados, em mais uma sensação horrível de falta de coordenadas e dos parâmetros usuais, o simples sentimento da ação da gravidade que nos faz caminhar, parar ou virar para os lados da maneira a que estamos acostumados. Sentimento de horror. Quantos segundos, não sei. Uma eternidade, suficiente para nos deixar aparvalhados. Refeito do impacto, final da tremedeira, resolvi buscar o escritório do cliente e me apresentar para a reunião, já que terremotos fazem parte do cotidiano do japonês. Não tinha, até então e somente muitas horas depois, a noção da tragédia que estava se abatendo sobre o Japão.
No caminho para o escritório, pude ver muitas pessoas em frente aos prédios, sinal de que haviam abandonado o local de trabalho; bicicletas caídas pelo caminho, placas e avisos derrubados também puderam me dar uma idéia de que havia sido, sim, um caso mais sério de terremoto, nada perto do que eu já havia vivenciado por aqui. Chegando ao prédio, tentei entrar mas o elevador estava desligado. Aguardei do lado de fora e logo vi funcionários com o crachá da empresa que deveria visitar. Perguntei sobre meu contato e informaram que havia permanecido trabalhando no décimo-quinto.
Esperei mais um pouco, na esperança de que logo voltasse a funcionar os elevadores. Atravessei a rua, comprei uma lata de café em uma máquina e, de repente, o segundo grande tremor. Voltei a atravessar a rua para não ficar no lado em que passavam os cabos de telefone e eletricidade. Um barulho que parecia o de uma revoada de pássaros fez com que todos olhassem para cima. Percebi tratar-se dos vidros dos edifícios próximos, vibrando em ondas regulares e fazendo o tal barulho de asas batendo. Esse foi mais rápido e ao cessar, o restante dos ocupantes dos edifícios resolveram descer e acabei encontrando-me com o contato da minha reunião.
A experiência de fazer uma reunião depois do terremoto, e na rua, não me pareceu muito estranha. Os japoneses costumam encontrar-se-se nas cafeterias, saguão de hotéis e não deixam de conversar por falta de espaço ou salas de reunião. O estranho do encontro foi que pediram desculpas pela reunião conturbada, como se eles tivessem a obrigação de desculpar-se pelo ato da Natureza. Claro, eu sou um estrangeiro e disponível para o encontro, marcado em cima da hora devido ‘a necessidade deles em conversar antes de embarcar para o Brasil. Outro fato inusitado foi que o gerente, em japonês, chamou a atenção do funcionário que desceu sem carregar os cartões de visita, contra a vontade e devido ao terremoto. Reunião realizada, despedi-me e perguntei como voltaria para casa e disseram que um táxi seria fácil. Agora vejo que também eles não tinham noção do tamanho do estrago.
Saí em direção ‘a estação de metrô e ao ver que estava fechada, caminhei junto ‘a multidão, centenas de pessoas em ambas os lados da via. Caminhei sem rumo, andando pelo lado em que estava. Depois de 10 minutos, parei em um Koban, posto policial. Muita gente pedia indicações e os pacientes policiais indicavam em um mapa a direção a seguir. Eu queria ir para Akasaka e estava perto do Tokyo Dome; perguntei ao policial e ele quis saber se eu estava de carro. Ao dizer que ia a pé, ele riu e apontou a direção, me informando que levaria pelo menos três horas caminhando.
Acostumado a andar, saí em marcha firme e, pelo caminho, parava para ver o noticiário nas TVs ligadas, vendo as primeiras imagens de tsunami atingindo as costas em regiões que não conseguia ainda identificar. Muita gente pelo caminho, nos dois sentidos de direção. Tempo para pensar no que fazer, por quê fazer e onde fazer. Continuar na aparente tranquilidade de Tóquio, sem assaltos e sem violência? Voltar ao Brasil? Mais duas horas de caminhada, sem telefone funcionando, sem caras conhecidas, sem ouvir uma palavra…
No segundo terremoto, tentei gravar alguma coisa com o celular, além de ter feito algumas fotos das bicicletas caídas, nada próximo das imagens que depois vi pela TV e que fez o mundo inteiro horrorizar-se com a violência das ondas que arrasaram cidades inteiras.[photopress:11_03_11_005.jpg,full,pp_image][photopress:11_03_11_002.jpg,full,pp_image][photopress:11_03_12_007.jpg,full,pp_image]

About Helio Ciffoni

Helio Galvão Ciffoni, 1956 Mestre em Educação, Físico e Engenheiro Civil. Empresário do setor de Tecnologia da Informação, consultor de empresas, professor universitário por mais de 25 anos.
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One Response to Terremoto em Tóquio

  1. christina e cia. says:

    viaje p BR primeiro e decida c a sua familia depois: cuide-se!

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