Yangon em dia chuvoso

Em novembro, visitando Yangon, eu me obriguei a trabalhar do hotel, com a chuva fina e constante (ou intermitente, como escreveria um outro). Pela janela do quarto, o Iniya Lake (assim mesmo, nem em birmanês nem em português), mostra-se sem convidar ninguém, não há nenhum dos barquinhos com seus remadores dos dias ensolarados. Os pássaros pretos escondem-se onde podem, as palmeiras estão peladas até o topo. Meu primeiro novembro em Myanmar, minha sétima visita a Yangon: estive em fevereiro, abril e outubro de 2012, depois em março, maio e outubro de 2013. Fiquei um ano sem aparecer, retorno sabendo que muito mudou desde a primeira visita: ruas entupidas de carros, dois viadutos prontos e um terceiro em construção. Dos taxis caindo aos pedaços do passado recente às lojas de Toyota, Suzuki e até Mercedes zero quilômetro. Os ônibus continuam do mesmo jeito, velhos e de segunda ou terceira mão, alguns mantendo suas inscrições originais, como o micro-ônibus japones de jardim de infância, agora apinhado de trabalhadores locais ou o ônibus coreano ainda com anúncios nas laterais que já não fazem sentido algum.
Estou hospedado no Iniya Lake Hotel, longe da cidade, com jeito de clube de campo. No final dos anos 1950, o hotel foi construído como um presente dos soviéticos ao governo da Birmânia e só isso já vale a passada pela construção: amplos quartos, pé-direito elevado, parquet, restaurante imponente, longos corredores, escadaria da época. No entorno, quadras de tenis, pista de exercícios e o deck na beira do lago. Diz a lenda que o desenho da piscina leva a assinatura do Camarada Kruschev; não sei ao certo mas imagino que o bar da piscina deveria servir vodka da melhor qualidade.
Saio do hotel ainda embaixo de chuva, negociando com o motorista o preço para ir ao mercado de artesanato, jóias, roupas e outras atrações de Myanmar. Taxis não tem taxímetro e eu tenho cara de estrangeiro,sem dúvida, o que significa uma boa discussão para não ser explorado; sempre concordo que tenho que pagar mais do que os locais pois os preços ainda são bem baixos para nós e qualquer 30% a mais vai significar muito pra eles. E nunca o aumento vem de forma agressiva ou impositiva: é resultado de uma rápida negociação.
Mercado fechado, chuva amainada e resolvo sair a pé, em busca do Strand Hotel, um ícone à beira do rio e que me foi apresentado na primeira vez em Yangon. Caminho na chuva, fotografando o que vejo: o vendedor de comida, os belos prédios abandonados do período colonial britânico, a sujeira nos becos, os ônibus lotados. Chego no Strand e vou logo ao Café: quero um Organic Myanmar Coffee, fecho o acordo para comer o conjunto todo de iguarias tipo “chá das cinco”.

Deslumbrado com o estilo “aventura”, saído das antigas revistas do Fantasma-que-Anda, o velho Kit Walker. Minha infância nas paredes, nos ventiladores do teto, nos europeus tomando chá nas mesas próximas. Enquanto escrevo, tomo café, escuto idiomas diversos: inglês, alemão, francês e o birmanês dos funcionários.
Hora de pedir a conta, enfrentar a chuva e partir para a próxima.

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